O som que toma conta do Parque do Povo, em Campina Grande, semanas antes do início d’O Maior São João do Mundo, ainda não é o do forró. No lugar do triângulo e da sanfona, são as ferramentas, os motores e as vozes de dezenas de trabalhadores que anunciam: a festa já começou — pelo menos nos bastidores.
É ainda em abril que o espaço começa a se transformar. Aos poucos, entre estruturas metálicas, tapumes, latas de tinta e milhares de bandeirinhas, surge o Quartel General do Forró. O que, em poucos dias, será cenário de música, dança e celebração, agora é um grande canteiro de obras, dividido em etapas e conduzido por trabalhadores divididos em equipes vindas de diferentes lugares do país.
Perto de um caminhão, enquanto painéis são descarregados com a ajuda de uma empilhadeira, Azuil de Castro acompanha cada movimento. Conhecido apenas como Castro, ele trabalha com eventos há três anos e participa pela terceira vez da montagem do São João de Campina Grande.
“É um trabalho de apoio. A gente ajuda no descarrego, no carregamento, na montagem, na desmontagem… vai fazendo de tudo um pouco. São estruturas metálicas, painéis, fechamentos, tapumes”, explica, enquanto observa a equipe em ação.
A rotina é intensa, mas também marcada pela convivência. Entre turnos longos e viagens, os trabalhadores constroem mais do que estruturas: criam vínculos. É o caso de Francisco de Assis, montador de estandes que saiu do Ceará para integrar a equipe. Em sua segunda participação no evento, ele não esconde o entusiasmo.
“Aqui é uma experiência única. A primeira vez que eu vim, mal cheguei em Fortaleza e já queria voltar. O pessoal daqui é muito acolhedor, igual a gente”, conta.
Se no chão o trabalho é pesado, no alto ele ganha leveza — e cor. São as bandeirinhas e balões que, em breve, vão cobrir o céu do Parque do Povo. A tarefa é liderada pelo cenógrafo José Sereco, que há quatro décadas participa da construção visual da festa.
Responsável por decorar espaços como o Parque do Povo, o Parque Evaldo Cruz e a Vila do Artesão, Sereco acompanha a evolução do São João desde 1986 — ano que, segundo ele, ficou marcado para sempre.
“No total, são 179 mil metros de bandeiras, além de balões e outros adereços. O trabalho começa logo depois do carnaval. É muita coisa — se fosse enfileirado, chegava até Patos”, diz.
Para dar conta dessa dimensão, a equipe se divide entre a produção, feita em galpão, e a montagem, já no parque. O resultado é um dos elementos mais emblemáticos da festa: o colorido que transforma o espaço e ajuda a criar a atmosfera junina.
Entre uma estrutura e outra, quem também acompanha de perto cada etapa são os bombeiros civis. Cabe a eles garantir que tudo aconteça com segurança, orientando o uso de equipamentos como capacetes, cintos e luvas.
Natural de Campina Grande, Jonatas Lourenço vive o evento por um ângulo especial. Há três anos na profissão, ele participa da festa desde que se formou — e carrega consigo a memória afetiva construída ao longo das gerações.
“Eu cresci ouvindo meus pais falarem do São João da época deles. Hoje, eles escutam de mim como é trabalhar aqui. A gente vê a magia se formando desde a montagem. Depois, quando começa, é emoção, alegria… é cultura viva”, relata.
Veterano na montagem, Nicolau Baldé também conhece bem essa transformação. Há 14 anos na Arte Produções, ele participa pela quarta vez da estruturação dos restaurantes, camarins e demais espaços do evento.
“A cada ano evoluimos e nos superamos. É cansativo, mas quando termina, é missão cumprida. Trabalhar com eventos da orgulho. No fim, dá um alívio, uma satisfação”, resume.
Quando junho chega e o forró finalmente toma conta do Parque do Povo, o público vê apenas o resultado: um espaço pronto para receber milhões de pessoas. Mas, por trás de cada bandeira hasteada e de cada estrutura montada, há histórias, esforço e um trabalho que começa muito antes da primeira música tocar.
É desse encontro entre suor de trabalhadores e celebração que nasce, ano após ano, o Maior São João do Mundo.
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